A chave para compreender o domínio da Aprilia está nos métodos de trabalho da marca – e na paciência que demonstrou até que essa filosofia se concretizasse
Elogiar os executivos que lideram a Aprilia é a coisa mais fácil do mundo hoje em dia. Muito mais difícil foi defendê-los há não muito tempo — no final de 2024, por exemplo —, quando Maverick Viñales, o piloto melhor classificado da equipe italiana, terminou a temporada em nono lugar no Mundial de MotoGP, praticamente amaldiçoando uma moto cujo desempenho, na sua opinião, variava drasticamente de um circuito para outro.
Em momentos como esse, a tentação é entrar em pânico e desmantelar tudo estruturalmente, como fez a KTM. A fabricante austríaca ainda está pagando o preço por uma reestruturação que agora parece precipitada e carente de uma análise adequada.
Em contraste, o que a Aprilia está vivendo hoje é o melhor momento esportivo de sua história, e isso não diminui em nada a série de títulos que conquistou há mais de uma década nas categorias menores do campeonato.
A marca conquistou 10 dos 15 pódios disputados até agora no ano, em comparação com os três da Ducati e os dois da KTM. Ela venceu quatro dos cinco GPs realizados até agora, com o triunfo esmagador de Le Mans servindo como a mais recente e clara expressão da fórmula que levou a divisão de corridas da Piaggio ao topo da pirâmide na MotoGP.
Não há nenhum segredo oculto por trás desse sucesso. É o resultado de uma filosofia de trabalho notavelmente semelhante à que recentemente elevou a Ducati – e, igualmente importante, de resiliência e perseverança.
Enquanto a KTM perdeu a paciência e passou de uma onda de contratações frenéticas para uma onda de demissões em menos de dois anos, a Aprilia resistiu aos momentos difíceis e agora colhe os frutos com satisfação evidente.
Essa satisfação se torna ainda maior quando se considera que, de acordo com fontes de equipes rivais consultadas pelo Motorsport.com, a Aprilia é também a fabricante mais eficiente no grid em relação ao seu investimento na MotoGP.
Massimo Rivola é o arquiteto do programa de MotoGP da Aprilia
Foto: Gold and Goose Photography / LAT Images / via Getty Images
Se há pessoas que merecem crédito especial por moldar a ascensão da Aprilia, três nomes se destacam dos demais devido às suas posições e responsabilidades dentro da estrutura: Massimo Rivola, CEO da divisão de corridas e arquiteto do projeto da MotoGP; Fabiano Sterlacchini, diretor técnico; e Marco de Luca, chefe de desenvolvimento.
Rivola chegou antes da temporada de 2019 vindo da Ferrari na F1, onde havia trabalhado em vários departamentos. De Luca o seguiu vindo da Scuderia. A chegada do especialista em aerodinâmica – e a confiança depositada tanto nele quanto no grupo ao seu redor – ajuda a explicar por que a Aprilia vem operando há muito tempo na vanguarda da área, a ponto de algumas de suas inovações, como a aleta sob o assento, terem se tornado tendências em todo o grid.
Os lampejos de brilhantismo vistos em 2022 – quando Aleix Espargaró conquistou a primeira vitória da Aprilia na MotoGP e permaneceu na disputa pelo título até as etapas finais do campeonato – não se mantiveram nas duas temporadas seguintes.
No entanto, esse revés não desencadeou medidas drásticas. Em vez disso, a Aprilia manteve o rumo e fortaleceu a organização com mais uma contratação que injetaria ainda mais energia em um grupo já profundamente comprometido e ambicioso.
“Temos que agradecer ao Fabiano por todo o trabalho que ele fez”, disse Rivola a um grupo de jornalistas em Le Mans, que incluía o Motorsport.com. “Ele nos deu o que estava faltando. Ele trouxe a mentalidade de uma verdadeira empresa de corrida quando se trata de lidar com problemas".
E o que exatamente Rivola quer dizer com essa “mentalidade de corrida”? Tomada de decisão mais rápida – e tempos de reação mais curtos.
O Motorsport.com apurou que o estilo de gestão de Sterlacchini difere consideravelmente do de Romano Albesiano, ex-diretor técnico da Aprilia que mais tarde se transferiu para a Honda, e cujo cargo acabou sendo ocupado pelo ex-engenheiro da KTM. Na verdade, o próprio Sterlacchini já foi abordado pela HRC, embora as duas partes nunca tenham chegado a um acordo por várias razões.
A Aprilia conquistou 10 dos 15 pódios disponíveis em 2026
A maioria dos membros do grupo de engenharia da Aprilia destaca a liberdade que ele lhes dá e o espaço que cria para propor soluções. Essa atmosfera alimenta o entusiasmo internamente e gera motivação adicional – um dos principais ingredientes por trás do sucesso da Aprilia.
Neste momento, com a melhor moto do grid em sua garagem e a Ducati um tanto desestabilizada pela incerteza em torno da lesão de Marc Márquez– “Desejamos a Marc uma recuperação completa porque queremos competir contra os melhores”, disse Rivola sobre o espanhol –, o único perigo visível pode vir de dentro. Muito dependerá do que acontecer na pista entre Marco Bezzecchi e Jorge Martín.
Não apenas porque as tensões entre eles podem se intensificar em futuros confrontos na pista, algo que agora parece quase inevitável, mas também porque o italiano pode eventualmente achar injusto ter realizado a maior parte do trabalho de desenvolvimento em uma máquina que agora se tornou a referência – apenas para que seu companheiro de equipe, que deve sair em 2027, colha os benefícios.
Ainda assim, alguém como Rivola, endurecido por anos navegando nas águas infestadas de tubarões da Fórmula 1, quase certamente já antecipou a questão – e provavelmente elaborou uma estratégia para lidar com ela.
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