Novo regulamento deu origem a um estilo diferente de corrida, nunca antes visto na categoria
A Fórmula 1 iniciou uma nova era em 2026 com o que pode ser considerado a maior reformulação regulamentar de sua história, já que tanto o chassi quanto a unidade de potência foram alterados.
O chassi agora é mais leve e ágil, com o peso mínimo reduzido em 32 kg, enquanto a unidade de potência conta com mais energia elétrica, com uma divisão de quase 50/50 em relação ao motor de combustão interna.
Isso tem sido, no mínimo, controverso, pois, embora as mudanças no chassi tenham sido vistas como positivas, considerando que o gerenciamento de peso se tornou um problema crescente para a F1, a mudança para unidades de potência mais elétricas não foi bem recebida.
No geral, isso criou um produto muito diferente este ano, conhecido como “yo-yo racing” (corrida iôiô, em tradução livre), dominando as conversas após as corridas. Mas o que é isso exatamente e qual tem sido a reação no grid?
Por que é chamado de “corrida iôiô"?
Havia muitas intenções por trás dos regulamentos de 2026, mas uma delas era melhorar o espetáculo das corridas. Isso porque as disputas roda a roda tinham se tornado cada vez mais raras à medida que os carros ficavam maiores e mais pesados. Em 2025, por exemplo, o peso mínimo regulamentado era de 800 kg, o que representava um aumento de 180 kg em relação a 2010, um problema por si só.
Isso resultou em corridas muito estáticas, nas quais frequentemente se formavam comboios de DRS e poucos conseguiam fazer ultrapassagens, mesmo que os carros fossem rápidos. A F1 tentou superar isso com os novos regulamentos, mas, na prática, ficou de mãos atadas devido à direção em que ia a indústria automotiva em 2022, quando os novos regulamentos foram assinados.
Lewis Hamilton e Charles Leclerc, Ferrari
“Quando discutimos os regulamentos atuais, as montadoras, que estavam muito envolvidas, nos disseram que nunca mais fabricariam outro motor de combustão interna”, disse o diretor de monopostos da FIA, Nikolas Tombazis. “Eles iriam descontinuá-los e, em qualquer ano que fosse, seriam totalmente elétricos".
Isso inspirou o campeonato a optar por um conjunto de regras mais voltado para a eletricidade, buscando atrair marcas como a Audi e a Honda - o que deu certo. No entanto, embora isso tenha um lado positivo, levou o estilo de corrida a um nível totalmente novo, o qual não era o inicialmente pretendido.
Agora, os GPs são definidos pela gestão de energia, em que os pilotos devem manter energia suficiente na bateria para completar uma volta o mais rápido possível. Para isso, os carros podem reduzir a marcha em retas, tirar o pé do acelerados e deslizar nas curvas (o chamado lift and coast) ou entrar em superclipping — quando a bateria recarrega enquanto o motor está a todo vapor —, resultando em “corridas iôiô”, referência à natureza de constante vai-e-vem das disputas, testemunhada em todas as etapas deste ano.
No passado, quando uma ultrapassagem era feita, geralmente era o fim da história, pois o carro atacante permanecia na frente e buscava o próximo alvo. Era raro que o piloto atrás conseguisse acompanhar seu rival e recuperar a posição. Mas agora, com níveis de bateria variáveis ao longo de uma volta, as disputas roda a roda se mantém por tempo demais.
A China foi um exemplo disso: muitas vezes uma ultrapassagem era feita na entrada da curva 14, em forma de gancho, apenas para um piloto recuperar a posição na reta de largada e chegada. Isso continuava também no setor dois de Xangai.
Assim, ultrapassagens e 'contra-ultrapassagens' ocorrem constantemente em 2026. Para efeito de comparação, no GP da Austrália deste ano aconteceram 120 ultrapassagens, enquanto, em 2025, tiveram 'apenas' 45.
Se isso é bom ou não é discutível e, em uma entrevista recente ao Motorsport.com, o CEO da F1, Stefano Domenicali, revelou que o campeonato nunca mais deve permitir que montadoras influenciem a direção dos regulamentos — especialmente porque o foco em motores elétricos não é tão grande na indústria automotiva quanto era há quatro anos.
“Veja o que fizeram na Renault”, disse Domenicali, referindo-se à forma como o fornecedor francês de motores decidiu repentinamente deixar a F1 no final de 2025. “Ela fazia parte das discussões para decidir sobre esse tipo de motor e, então, tomou a decisão de sair".
“É isso que estou dizendo. Não podemos estar em uma situação em que a crise do mercado possa levar a certas decisões difíceis para o fabricante dar prioridade a outras iniciativas. Portanto, temos que proteger isso", continuou.
De qualquer forma, essas unidades de potência apresentaram um novo estilo de corrida nunca antes visto na F1. É, na verdade, mais parecido com a Fórmula E, que também tem ultrapassagens constantes e disputas roda a roda graças aos seus motores totalmente elétricos, o que significa que a gestão de energia, uma boa estratégia e os auxílios ao piloto muitas vezes determinam quem vence.
Pilotos são favoráveis ao estilo de corrida da F1 2026?
Os regulamentos de 2026 são, sem dúvida, os mais polêmicos da história da categoria. Pode-se olhar para o aumento do número de ultrapassagens e vê-lo como algo positivo, pois significa batalhas roda a roda mais emocionantes, gerando ação da qual não se consegue tirar os olhos.
No entanto, muitos argumentam que essas manobras são “artificiais”, pois muitas delas são feitas simplesmente porque o piloto à frente está economizando energia da bateria, fazendo com que uma ultrapassagem “valha” menos.
Isso foi testemunhado em Suzuka, quando Lando Norris foi forçado a tirar o pé do acelerador para evitar bater na traseira da Ferrari de Lewis Hamilton na curva 130R. Ele então recebeu mais potência do que o esperado ao pisar no acelerador novamente, forçando-o a ultrapassar o heptacampeão mundial, mas esgotando a energia da bateria durante o processo. Assim, o piloto da McLaren perdeu a posição imediatamente.
“Eu nem queria ultrapassar o Lewis”, disse Norris. “É que minha bateria se aciona, eu não quero que ela se acione, mas não consigo controlar. Então, eu o ultrapasso e fico sem bateria e ele simplesmente passa voando. Isso não é corrida, é um jogo de ioiô. Mesmo que ele diga que não é, é um jogo de ioiô".
Lando Norris, McLaren, Max Verstappen, Red Bull Racing, Oliver Bearman, Haas F1 Team
O atual campeão mundial se referia ao fato de Hamilton ter falado positivamente sobre as novas regras, alegando que “se você voltar ao kart, é a mesma coisa”.
“As pessoas ficam indo e voltando, indo e voltando, você nunca consegue se distanciar”, acrescentou ele. “Ninguém jamais se referiu ao kart como corrida de ioiô. É a melhor forma de corrida. E a F1 não é a melhor forma de corrida há muito tempo. De todos os carros que eu pilotei em 20 anos, este é o único em que você consegue realmente acompanhar em [curvas] de alta velocidade sem perder completamente tudo o que tem. Você consegue ficar atrás".
Portanto, as visões opostas de Norris e Hamilton apenas mostram como o grid está dividido em relação à nova regulamentação. O maior crítico de todos é, sem dúvida, Max Verstappen, que causou polêmica na pré-temporada ao rotular as novas regras como “anti-corrida” e “Fórmula E com esteróides”.
As críticas do tetracampeão mundial continuaram ao longo do ano, alegando que o conjunto de regras é “fundamentalmente falho” e que “se alguém gosta disso, então realmente não sabe o que é corrida”. Verstappen também negou as suposições de que ele só não gosta dos regulamentos porque sua equipe começou em desvantagem — está em sexto lugar após três etapas — e que apenas os pilotos que disputam a frente são favoráveis.
Esse último ponto é, de certa forma, verdade, pois Hamilton está tendo um início de temporada muito mais forte do que nos anos anteriores. Enquanto isso, os dois primeiros colocados no campeonato, Kimi Antonelli e George Russell, também falam positivamente sobre as corridas deste ano.
“Corridas ioiô” continuarão em 2026?
Foto: Sam Bloxham / Motorsport Images
As preocupações levantadas pelos pilotos levaram a F1 e sua entidade reguladora, a FIA, a já fazer alterações no regulamento antes da etapa em Miami neste fim de semana. Um dos ajustes envolveu a classificação, pois em 2026 ela não tem sido tão 'pé embaixo' quanto nos anos anteriores, então o limite de recuperação de energia no sábado foi reduzido de oito megajoules para sete.
Mas é o ajuste no superclipping que pode impactar as “corridas iôiô”, já que ele será aumentado de 250 para 350 quilowatts, o que significa que os pilotos poderão recuperar mais energia enquanto aceleram. É uma mudança que o chefe da McLaren, Andrea Stella, já havia solicitado durante a pré-temporada e, embora não deva eliminar todas as preocupações, as corridas provavelmente serão mais seguras sem a aceleração e a desaceleração inesperadas.
Esse elemento de segurança tornou-se prioridade após o acidente de Oliver Bearman durante o GP do Japão. Ele estava aproximadamente um segundo atrás de Franco Colapinto no segundo setor, mas de repente se aproximou quando a Alpine sofreu com falta de energia e, com uma diferença de velocidade de quase 50 km/h, foi forçado a uma manobra evasiva. A Haas, portanto, deu uma guinada para a esquerda, mas de repente estava na grama, batendo nas barreiras a 50G.
Agora, com as mudanças reduzindo as situações de lift and coast e desaceleração, as diferenças de velocidade devem ser menores, resultando em menos situações do tipo “ioiô”. Mas, fundamentalmente, até certo ponto, ainda se espera que isso ocorra nos GPs.
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Esta publicação foi consolidada a partir da matéria original indicada abaixo.
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