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Título: Cafés-espia, robôs e Akio AI: uma visita à futurista Woven City da Toyota

Woven City, a comunidade planejada aos pés do Monte Fuji, foi concebida como um laboratório urbano onde a Toyota testa ideias que vão além do automóvel tradicional. Ali, o termo POC — prova de conceito — funciona como mantra: um lembrete constante de que o objetivo é experimentar, validar e, se necessário, falhar rápido para seguir adiante. Daisuke Toyoda, vice‑presidente sênior da Woven by Toyota e filho do presidente Akio Toyoda, repete essa ambição ao celebrar a conclusão da primeira fase residencial.

A cidade abriu suas portas para moradores, empresas e engenheiros em setembro de 2025. O empreendimento ocupa a área ao lado do casco da antiga fábrica Higashi‑Fuji, que produziu mais de 7,5 milhões de veículos ao longo de 53 anos antes de encerrar operações em 2020. A requalificação do local foi anunciada pela Toyota já em 2020, como parte da transição da marca para uma postura mais ampla de mobilidade e software.

O cotidiano em Woven City mistura a vida familiar com o trabalho de desenvolvimento. Kota Oishi, responsável pelas equipes de produto no projeto, mora ali com os filhos; um deles, de dez anos, passa as manhãs observando robôs e registrando falhas. As anotações infantis viram relatórios de erro que são entregues diretamente aos desenvolvedores, criando um canal curioso entre curiosidade infantil e engenharia — e ajudando a nivelar a conversa entre criador e usuário.

Empresas com trajetória longa, como o grupo educacional Z‑kai, abraçaram o papel de "inventores" no local. Fundada em 1931, a companhia abriu uma creche com atendimento pós‑escolar em Woven City e tem feito múltiplos POCs para entender quais tecnologias podem sair da cidade e se aplicar em outros ambientes. Uma das inovações testadas é um tablet vertical com câmera direcionada ao caderno do aluno; por meio de mapeamento de projeção, o professor pode destacar exatamente onde a atenção é necessária — sistema que a Z‑kai pretende levar para alunos fora da cidade neste outono.

Apesar das ambições, o assentamento ainda é pequeno: cerca de 100 moradores em tempo integral e aproximadamente 200 profissionais que circulam diariamente tornam a cidade, por ora, uma espécie de vila experimental. Esse público reduzido, porém, oferece vantagens para o teste de ideias: laboratórios públicos de inventor são acessíveis aos residentes, e a coleta de dados é feita com consentimento, permitindo ajustes rápidos nas tecnologias em desenvolvimento.

Nem só de educação e robôs vive Woven City. Uma unidade da rede UCC opera como um espaço de testes onde, com autorização dos clientes, câmeras alimentam o Woven City AI Vision Engine, um modelo de visão e linguagem que identifica comportamentos — por exemplo, se alguém está concentrado no laptop ou distraído lendo um livro. Esses insights podem orientar mudanças na preparação do café para melhorar o foco ou inspirar soluções que, sem necessariamente manter a coleta de dados, acabariam integradas a produtos como um futuro RAV4. A empresa de climatização Daikin também experimenta ali um “espaço sem pólen” que pode evoluir para melhorar o ar dentro de veículos.

A experimentação inclui veículos e robôs: desde a e‑Palette elétrica até o scooter de pé de três rodas Swake, apresentado no Japan Mobility Show de 2025. Entre as curiosidades está o Guide Mobi, um robô baixo e robusto capaz de assumir controles via sistema guide‑by‑wire para “rebocar” carros — solução pensada para funções de summon sem exigir sensores caros como lidar. Além disso, veículos autônomos fazem o trajeto entre a cidade e uma estação de trem próxima. Após cerca de seis meses de atividades, os resultados concretos ainda são limitados, mas os POCs exóticos e a interação direta com moradores são o que podem, no futuro, transformar essa cidade em uma vitrine de provas bem‑sucedidas.