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Um exemplar pouco óbvio para quem busca discrição e desempenho: um Lotus Carlton de 1992 anunciado no Bring a Trailer promete ser o carro‑fuga definitivo. À primeira vista lembra um sedã familiar comum — e é justamente essa capacidade de passar despercebido que o torna tão perigoso e sedutor ao mesmo tempo; testemunhas da época relatavam não conseguir identificar marca ou modelo, enquanto a arrancada deixava qualquer perseguidor para trás.

Na década de 1990, a combinação de carroceria sóbria e performance devastadora virou problema para a polícia britânica. Patrulhas Vauxhall não conseguiam alcançar o Carlton e o caso chegou a motivar debate no Parlamento do Reino Unido, tamanha a inquietação gerada pelos números de velocidade e pelo uso em crimes de estrada.

O segredo está sob o capô: um V6 de 3,6 litros com dois turbocompressores Garrett T25, preparado pela própria Lotus. Esse conjunto entregava pouco menos de 380 cv, suficiente para levar o sedã além da marca de 180 mph se explorado ao máximo — desempenho que, à época, colocava o Carlton à frente de rivais de imagem muito mais esportiva.

A transmissão é um câmbio manual de seis marchas compartilhado com o Corvette ZR‑1 contemporâneo, enquanto a dinâmica conta com acerto de suspensão assinado pela Lotus, rodas de liga de 17 polegadas com desenho dish e freios com pinças AP Racing. A produção foi limitada: todos os 950 exemplares saíram das instalações da Lotus em Hethel.

A fama de mau caratismo não é apenas teoria. A placa 40RA ficou célebre depois que um Carlton foi usado em uma série de arrombamentos num estabelecimento em Worcestershire, a poucos passos de uma delegacia, e os ocupantes conseguiram escapar repetidas vezes. A frustração policial da região chegou a ser pública, com agentes contando que não conseguiam se aproximar do veículo.

O Carlton também carrega notas culturais curiosas: para o público norte‑americano o nome evoca o personagem de Alfonso Ribeiro, que por sinal é piloto habilidoso e vencedor tanto na categoria de celebridades quanto como profissional no antigo Pro/Celebrity de Long Beach. Essa combinação de imagem discreta e rendimento surpreendente reforça o apelo do modelo.

Quem busca um exemplar hoje encontra o anúncio no Bring a Trailer, plataforma que integra o mesmo grupo editorial de algumas publicações automotivas internacionais. Mesmo sem avalizar usos ilícitos, fica difícil não admirar um projeto que misturou refinamento de sedã e brutalidade de supercarro — e que, mais de três décadas depois, segue gerando histórias sobre o carro que muitas autoridades nunca conseguiram alcançar.