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A alta do custo de importação de veículos e peças tarifadas vindas do Canadá e do México ameaça a sobrevivência dos automóveis mais baratos no mercado norte-americano. Montadoras estrangeiras podem se ver incapazes de fabricar e vender carros de entrada para os EUA caso não haja uma redução substancial nas tarifas sobre veículos e componentes, segundo relatório não verificado que circula entre conselheiros econômicos da administração.

O recálculo da conta vale mesmo para modelos cuja montagem final ocorre em solo americano: se o preço das peças importadas continuar inflacionado, até esses carros podem desaparecer da oferta. O tratado comercial entre EUA, México e Canadá (USMCA) está em revisão, com prazo de renovação marcado para 1º de julho, e o setor automotivo já pressiona por um retorno a compromissos mais amplos de livre comércio no continente.

A atual política tarifária impôs uma sobretaxa de 25% sob justificativa de segurança nacional contra parceiros que, até então, eram tratados como aliados comerciais. A mudança elevou os custos da cadeia de suprimentos e alimentou incertezas sobre o futuro da oferta de modelos de preço acessível.

A escassez já se reflete no dia a dia: hoje existem apenas quatro carros novos disponíveis nos EUA com preço abaixo de US$ 25.000, e três deles correm o risco de sair de linha até o fim do ano. Entre as decisões recentes estão a descontinuação do Versa pela Nissan e do Soul pela Kia; a Hyundai desenvolve a segunda geração do Venue, mas ainda não definiu seu lançamento no mercado norte-americano.

Na última década, dezenas de modelos de entrada foram retirados do mercado à medida que custos subiam, e não há sinais de reversão desse movimento. Renovar o acordo trilateral e eliminar tarifas sobre mercadorias mexicanas e canadenses aparece como exigência mínima para preservar ao menos parte da oferta de carros baratos.

O impacto social é direto: quando veículos novos e baratos desaparecem, a população de menor renda fica refém do mercado de seminovos. Hoje US$ 10.000 dificilmente compram um carro novo — referência à década passada, quando era possível achar um compacto por esse valor — e, atualmente, esse montante frequentemente só alcança crossovers usados com alta quilometragem. Veículos usados podem ocultar problemas de manutenção que elevam custos totais e, em casos extremos, comprometer a atividade profissional de quem depende do carro para trabalhar.

Economicamente, Canadá e México são parceiros de peso: cerca de 45% dos automóveis vendidos nos EUA são importados, e aproximadamente metade dos componentes usados na fabricação local vem desses dois países. A combinação de tarifas e políticas comerciais recentes elevou custos e contribuiu para pressões inflacionárias incomuns, com reflexos na confiança do consumidor. Medidas pontuais, como a abertura limitada do mercado canadense a marcas chinesas para reduzir preços, podem ajudar, mas a indústria e os consumidores aguardam decisões mais abrangentes antes que a mobilidade acessível volte a ter perspectiva de recuperação.