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Os Estados Unidos têm cerca de 25 dias de suprimento de petróleo armazenado — um número que gera manchetes alarmantes, mas não sinaliza um fim iminente do combustível nas bombas.

Mesmo sendo o maior produtor mundial de petróleo, o país continua dependente de importações para atender à demanda por gasolina e diesel, em parte porque parcela significativa do crude é destinada a outros derivados.

O consumo norte-americano de gasolina está entre 8 milhões e 9 milhões de barris por dia. A produção doméstica pode alcançar 13,9 milhões de barris diários, dos quais aproximadamente 4,8 milhões são exportados. Na prática, se todo o petróleo produzido fosse transformado exclusivamente em gasolina, a oferta estaria quase em equilíbrio com o consumo — situação que, obviamente, não é realista devido às necessidades por diferentes produtos refinados.

Além da produção corrente, os EUA dispõem de 413 milhões de barris de crude em reservas estratégicas. Em cenários de aperto, há opções políticas e operacionais: reduzir exportações, liberar estoques ou ajustar fluxos de refino. Essas alavancas ajudam a mitigar o risco de desabastecimento total, embora não eliminem a sensibilidade a choques externos.

O estrangulamento do fluxo pelo Estreito de Ormuz agravou o cenário global. Com o transporte marítimo comprometido, várias nações ficaram próximas de faltar combustível; a consequência imediata é pressão sobre preços e busca por alternativas. Quando compradores internacionais pagam mais para garantir abastecimento, sobra menos oferta para o mercado interno americano.

Os números de preços confirmam a volatilidade: a média da gasolina nos EUA ultrapassa US$ 4 por galão, enquanto na Europa o valor médio saltou de US$ 5,93 para US$ 10,10 por galão. Essa disparidade cria incentivo para que produtores americanos aumentem exportações em busca de margens maiores, limitando o efeito isolante dos estoques domésticos.

Para a indústria automotiva e para o motorista, o impacto é direto: a alta da gasolina e, sobretudo, do diesel pressiona custos de transporte, logística e o preço final de produtos. Especialistas apontam que a escassez completa de petróleo é improvável; o desafio real é administrar a integração dos EUA ao mercado global, onde preços e fluxos são ditados pela oferta e demanda internacional.

Casos recentes no exterior ilustram o risco: seis entregas programadas de petroleiros à Austrália foram canceladas e nem todas foram substituídas, situação que deixou centenas de postos sem pelo menos uma octanagem. Esse tipo de interrupção evidencia a sensibilidade da cadeia e explica por que a política de exportações e a gestão de reservas serão decisivas nos próximos meses.