A Honda resolveu transformar sua história sonora em um programa de alta fidelidade: o ronco de alguns de seus motores mais icônicos foi gravado em definição elevada para que entusiastas possam ouvir cada curva de giro com clareza. A iniciativa resgata uma herança que, mais do que visual, é profundamente auditiva.
O berço dessa coleção é o Collection Hall, no circuito Twin Ring Motegi, no Japão. Lá estão alinhadas máquinas que fizeram a lenda da marca — de motos vencedoras da Isle of Man TT ao primeiro carro de corrida Curtiss do próprio Soichiro Honda — e, ao contrário de vitrines estáticas, muitas dessas peças são religadas para ganhar vida no pátio.
Como nem todo fã tem como cruzar o Pacífico, a marca comemorou os 60 anos da sua primeira vitória na Fórmula 1 e começou a divulgar uma série de vídeos que deixam ouvir motores a chegar ao limite de giro. É a chance de sentir, mesmo de casa, o caráter agressivo de projetos concebidos para a pista.
Entre as relíquias sonoras, destaca-se o RA272 de 1965, equipado com um V12. O conjunto explode em som quando pega giro, lembrando que, nas origens na F1, a Honda buscava superioridade pelo motor, ainda que o chassi tivesse dificuldades para bater rivais como Brabham e Lotus. O conta-giros chega a marcar 10.000 rpm — um detalhe que fala por si.
Outros registros trazem a insanidade das duas rodas: a NSR500 de 1985, movida por um V4 dois-tempos, é um exemplar monumental. Com mais de 100 vitórias e dez títulos mundiais na classe 500cc, seu estalo e a entrega explosiva de potência remetem aos anos dourados do motociclismo de pista.
A galeria de sons inclui ainda o NSX-GT de 2000. Ao abrir a carenagem do motor, a sequência de bombas e o acerto fino revelam um V6 com resposta cirúrgica no acelerador — imagem sonora perfeita para imaginar disputas com GT-Rs no traçado de Fuji.
E para fechar, há a curiosidade mecânica do HSV-010 GT: um V8 de 3,4 litros com redline a 10.300 rpm, peça que provoca suspiros por onde passa, justamente por sua faixa de giro extrema.
Hoje a Honda vive dias mais silenciosos nas ruas, com modelos como o Prelude híbrido privilegiando suavidade e eficiência. Ainda assim, a montadora não deixou seu passado ruidoso empoeirado: quem não pode ir a Motegi encontra nessas gravações uma viagem sonora capaz de reavivar o espírito competitivo.