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Em carros antigos com câmbio manual pode aparecer um curioso E na alavanca — um detalhe que desperta curiosidade nos entusiastas. Embora muitas pessoas interpretem esse sinal como 'economy' ou 'extra', a designação oficial em modelos alemães daquela época era eficiência. Na prática, o que esse posicionamento traz ao conjunto é um marchar mais alongado, pensado para economizar combustível em trechos abertos e rodovias.

Um exemplo emblemático veio da Volkswagen no início dos anos 80. O Rabbit/Golf de 1981 estreou com um motor quatro cilindros de 1,7 litro e um câmbio identificado como 3+E: basicamente um quatro marchas convertido em três marchas mais uma posição E de overdrive. Mesmo com a reorganização das relações, o conjunto manteve a mesma relação final de 3,89:1, o que permitiu ganhos relevantes de consumo verificados pela EPA — 28 mpg em uso urbano, ante 24 mpg do modelo anterior.

Na linha Mk1, existiu inclusive uma versão Formula E para 1981, que combinava o câmbio 3+E com um indicador de troca de marchas, um mostrador de consumo e alterações aerodinâmicas na carroceria para reduzir o coeficiente de arrasto. Em 1983 a marca passou a oferecer em alguns Golf a opção 4+E, isto é, um quatro marchas com uma quinta eficiência/overdrive destinada a poupar combustível em cruzeiro.

O funcionamento é simples e muito próximo do de um câmbio manual convencional. Em um 4+E o motorista sobe normalmente até a quarta marcha e, ao estabilizar velocidade em rodovia, seleciona a posição E para baixar o giro do motor. No esquema 3+E procede-se da primeira para a terceira antes de engatar E. O objetivo dessa marcha adicional é permitir que o motor trabalhe a rotações menores, reduzindo as chamadas perdas por aspiração, ou pumping losses.

Reduzir essas perdas significa que o motor "respira" de forma mais eficiente, com menor consumo de combustível, menos ruído e menos desgaste mecânico em cruzeiros prolongados. Em outras palavras, a posição E funciona como um overdrive manual que favorece economia e maior conforto em longas viagens.

Hoje em dia, a presença de câmbios manuais no mercado norte-americano é quase simbólica: em 2024 os modelos com trocas manuais representaram menos de um por cento das vendas nos Estados Unidos. Em contrapartida, em mercados como China e Índia a caixa manual ainda tem apelo e presença substancial nas linhas de produção e nas escolhas dos consumidores.

A queda da popularidade dos manuais está atrelada à evolução dos motores — válvulas variáveis, recursos de desativação de cilindros, injeção direta e turbo, entre outros — e ao avanço das transmissões automáticas mais eficientes, como CVTs e caixas de dupla embreagem. Por isso, sistemas manuais de overdrive como o E dos anos 80, curiosos e engenhosos à sua maneira, tornaram-se cada vez mais raros, preservados hoje como peças de época em coleções e na memória dos aficionados.