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Carta do Editor: Em Memória do Tesla Model S

Quando a Tesla apareceu no mapa, fui cético. O primeiro carro da marca, o Roadster, parecia uma receita acelerada: um Lotus Elise com uma bateria — e eu cheguei a ter um Elise, então sei do que falo. Havia histórias internas que ilustravam o ineditismo daquela equipe, como a surpresa ao descobrir que peças triviais de carroceria não se compram em lojas de material de construção.

O que realmente mudou a equação foi o Model S. Ele cumpriu promessas que pareciam ambiciosas demais, provando que um carro elétrico podia ser prático, desejável e comercialmente viável. Nos primeiros anos, suas vendas chegaram a superar todo o volume da Jaguar, um indício do impacto que causou no mercado premium.

Por fora e por dentro, o Model S mostrou caminhos que outros seguiram: painel digital extenso, uma tela sensível ao toque dominante e maçanetas que se retraíam — embora essas últimas fossem mais incômodas do que necessárias. Por alguns anos houve até uma terceira fila voltada para trás, transformando o hatch em uma curiosa opção de sete lugares. Nem tudo foi ortodoxo; um exame inicial feito por engenheiros de grandes montadoras mostrou que o projeto contrariava dezenas de regras internas tradicionais.

Na estrada, o carro surpreendia pela força imediata. Um exemplar de 2013 com 416 hp acelerava até 60 mph em 4,6 segundos, desempenho à altura dos sedãs esportivos V8 da época. Mais adiante, as variantes reforçaram esse caráter, chegando a algumas das arrancadas mais rápidas já registradas. A ausência de trocas de marcha, turbo lag ou perda de performance em altitude entregava uma resposta sempre disponível — uma sensação que seduz e vicia.

A conta a pagar vinha da bateria: o primeiro Model S trazia um pacote de 85 kWh composto por mais de 7.000 células, adicionando perto de 1.300 libras a um peso em ordem de marcha de quase 5.000 libras. Isso fazia o carro seguro e previsível, mas também lembrava do peso quando se exigia aderência — os pneus chegavam a chiar nos limites. A frenagem regenerativa foi decisiva para permitir desacelerações sem uso constante dos freios mecânicos; a condução com um pedal tornou-se prática corrente.

Ao longo de 15 anos aquele mesmo modelo não foi substituído, mas evoluiu: mais autonomia, recarga mais rápida, tração integral, interiores revisados, mais potência e preços ajustados. Surgiu também o controverso sistema de direção semiautônoma, baseado só em câmeras, que hoje em dia tranquiliza pouco. No topo das tabelas, o Signature Performance partia de US$ 105.400 em 2012; em 2025 o Plaid, com bateria maior, mais alcance e 1.020 hp, custava US$ 96.630.

O mercado mudou e a percepção também: com a fuga de clientes da marca, valores de revenda caíram bruscamente — há exemplos de um Plaid de cinco anos anunciado por menos de US$ 40.000. Para quem avalia a compra, lembranças sobre política ou imagem do proprietário não alteram que esse lote de tecnologia e performance pode estar à venda por uma fração do preço original. Em memória, o Model S fica como o automóvel que redefiniu expectativas sobre o que um carro elétrico deste século poderia ser.