A Porsche nem sempre foi apenas sinônimo de carros esportivos. Nos primeiros anos, a empresa atuava como escritório de engenharia e assinava projetos completos para terceiros — foi assim que surgiram as primeiras denominações internas, como o projeto 356 e o 550 Spyder. Entre essas encomendas quase improváveis está um sedã concebido para a americana Studebaker, trabalho que quase virou realidade no início dos anos 1950.
A Studebaker buscava ampliar sua atuação global, com planos de fábrica em Ontário e ambições de vender na Europa. Chegou a avaliar assumir o controle da Volkswagen após a guerra, mas declinou devido à imagem negativa que cercava o modelo naquele momento. Foi aí que o importador e empresário Max Hoffman entrou em cena, promovendo o encontro entre executivos de South Bend e a equipe de Ferry Porsche.
Ferry levou à reunião, entre outros, um 356 e o protótipo Type 530 — basicamente um 356 esticado — e, embora o 530 não tenha convencido, a engenharia alemã impressionou o cliente. O pedido foi claro: um sedã com motor dianteiro e tração traseira, bloco de seis cilindros, mais potência e menos peso que o Studebaker Champion, e versões com arrefecimento a ar e a água.
O resultado foi o Type 542, identificado internamente por Studebaker como Z-87. A solução mecânica mais intrigante foi um V6 com ângulo de 120 graus, que entregava 98 cv na versão refrigerada a ar e 106 cv quando era água-resfriada. Apesar de superar alguns objetivos, o conjunto saiu cerca de 550 libras acima da meta de peso. O carro, contudo, trazia soluções inteligentes: dianteira removível para facilitar transporte e reparos, suspensão independente nas duas extremidades e construção robusta.
Em agosto de 1954 um protótipo completo chegou a circular pela Europa — Ferry levou o carro ao entorno de Genebra e depois seguiu até St. Moritz acompanhado por executivos de Studebaker, que reconheceram a qualidade do projeto. Ainda assim, a execução final naufragou em razão da política interna da montadora norte-americana. John Z. DeLorean, então responsável por engenharia avançada, rejeitou o modelo por questões de vibração e comportamento subesterçante.
A situação financeira da Studebaker também conspirou contra o Type 542. Menos de um mês após o carro ser entregue à fábrica em Indiana, a empresa foi adquirida pela Packard, e o sedã junto com seu V6 foram descartados. Curiosamente, pesquisas internas do próprio Studebaker indicaram que o público americano queria um compacto de motor traseiro e arrefecimento a ar — exatamente a proposta inicial de Ferry. Porsche chegou a apresentar uma alternativa, o Type 633 com motor boxer traseiro, mas o projeto não cabia no orçamento do cliente; anos depois um rival com layout semelhante, o Corvair, teria visibilidade no mercado.
O sedã Porsche–Studebaker acabou perdido na história: não há protótipos conhecidos e, hoje, a única peça preservada é um motor 542 exibido no museu de Stuttgart. Resta a curiosidade sobre o que poderia ter acontecido se alinhamento técnico e decisões internas tivessem convergido — um capítulo quase esquecido de duas marcas que, por caminhos diferentes, marcaram a indústria automotiva.