Estudo mostra que custo por km do carro a combustão já supera em mais de 3 vezes o de elétricos na região
Rodar com um carro elétrico já é significativamente mais barato do que usar um modelo a combustão na América Latina, e essa diferença não é mais marginal. Em média, abastecer com gasolina custa mais de três vezes o equivalente em eletricidade, podendo chegar a até nove vezes dependendo do país.
Os dados são de um levantamento da Agora Verkehrswende, que analisou o custo de energia por quilômetro rodado em diferentes mercados da região. Segundo o estudo, o custo mediano de rodar com um carro a combustão é cerca de três vezes maior do que o de um elétrico, um resultado que vai além do preço da energia em si e passa principalmente pela eficiência: motores elétricos convertem muito mais da energia em movimento, enquanto os motores a combustão desperdiçam uma parcela significativa em forma de calor.
Na prática, essa vantagem já aparece de forma consistente no mapa regional. No Brasil, por exemplo, rodar com gasolina pode custar mais de quatro vezes o equivalente em um carro elétrico. Em países como Argentina e Paraguai, essa diferença ultrapassa facilmente a faixa de sete vezes, enquanto no Uruguai chega a mais de nove vezes. Há ainda casos extremos, como Cuba, onde a diferença teórica supera 40 vezes, resultado de uma combinação específica de eletricidade altamente subsidiada e combustíveis fósseis caros.
O estudo mostra que o preço da eletricidade na região pode variar em até 20 vezes entre mercados, enquanto a gasolina costuma oscilar muito menos, geralmente entre três e quatro vezes. Isso faz com que países com energia mais barata concentrem as maiores vantagens econômicas para veículos elétricos.
Há, no entanto, uma exceção relevante que ajuda a contextualizar o cenário. A Venezuela é o único país analisado onde o carro elétrico não apresenta vantagem de custo, devido ao preço extremamente baixo da gasolina, resultado de subsídios elevados que praticamente eliminam o custo do combustível para o consumidor.
Mesmo quando entram na conta alternativas como etanol, GNV ou GLP, bastante relevantes em mercados como Brasil e Argentina, os veículos elétricos seguem como a opção mais barata em todos os países analisados. Isso reforça que a vantagem econômica da eletrificação já não depende apenas da comparação direta com a gasolina, mas se sustenta mesmo em cenários com combustíveis alternativos consolidados.
Esse cenário ganha ainda mais peso quando se olha para o impacto macroeconômico. A América Latina mantém uma dependência relevante de combustíveis fósseis importados, destinando, em média, cerca de 3% do PIB à compra de gasolina e diesel para transporte, quase o triplo do observado na Europa. Em alguns países, esse peso ultrapassa 5%, como em Paraguai, Bolívia e Honduras, evidenciando o quanto o transporte ainda está exposto à volatilidade do mercado internacional.
Mesmo em economias com produção de petróleo, essa vulnerabilidade não desaparece. A limitação na capacidade de refino faz com que muitos países continuem importando derivados, mantendo a pressão sobre as contas externas. Brasil e Argentina aparecem com participação menor, 0,78% e 0,66% do PIB, respectivamente, em parte graças à produção local e ao uso mais disseminado de combustíveis alternativos, como o etanol.
Por trás dessa vantagem dos elétricos está uma característica estrutural da região: a matriz elétrica. A América Latina tem cerca de 62% da sua geração baseada em fontes renováveis, mais que o dobro da média global, com forte presença de hidrelétricas. Isso ajuda a manter o custo da eletricidade relativamente baixo e estável, criando um ambiente naturalmente favorável à eletrificação do transporte.
Ainda assim, a adoção dos veículos elétricos não acompanha na mesma velocidade essa vantagem econômica. Infraestrutura de recarga limitada, custo inicial mais alto e desigualdade de acesso continuam sendo barreiras importantes. Em alguns casos, como o de Cuba, o próprio estudo mostra como a vantagem teórica não se traduz em uso real, justamente por limitações estruturais do sistema energético e da oferta de veículos.
Na América Latina, rodar de carro elétrico já é mais barato, e de forma consistente. O que ainda falta não é viabilidade econômica, mas acesso a essa vantagem.
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